Moderadores de conteúdo do Facebook parecem estar vivendo sob inquisição, já que estão tendo de lidar com “condições desumanas” de trabalho

Os moderadores de conteúdo do Facebook parecem estar vivendo sob inquisição, já que estão tendo de lidar com “condições desumanas” de trabalho nas instalações localizadas em Austin, no Texas (EUA). De acordo com os funcionários do setor em questão, as novas restrições impostas corroeram a confiança entre empregados e empresa, criando um ambiente pesado de trabalho — quase um Big Brother.

O setor de moderação é onde são filtradas postagens com violência gráfica, discursos de ódio e imagens contendo abuso infantil. Como se isso já não fosse pesado suficiente, o ambiente de trabalho parece não estar funcionando também, já que os funcionários estão proibidos de saírem do prédio da companhia durante o período de descanso e o uso de celulares foi banido dentro das instalações.

A proibição de celulares se aplica também a ligações de emergência de ou para familiares. Em carta aberta, os trabalhadores alegam que também não podem falar sobre o que fazem dentro da empresa para suas famílias e reclamam das atuais condições de trabalho. O documento foi publicado no fórum interno para empregados do Facebook e então encontrado e divulgado pelo Business Insider.

“Apesar do orgulho de nosso trabalho, os moderadores de conteúdo têm um status secundário na hierarquia do local de trabalho... Esse status secundário é reforçado por diretivas que gerenciam estritamente nossos afazeres pessoais e estão em oposição direta aos valores declarados pelo Facebook. Nós sentimos que [esta carta] é necessária para esclarecer as políticas que estão impactando negativamente nossa autonomia pessoal”, diz o documento.

A carta também ilustra as claras diferenças de condições de trabalho existentes da rede social, já que os funcionários em tempo integral possuem inúmeros benefícios e um salário soberbo, enquanto os trabalhadores contratados através de terceirizadas sequer são qualificados como empregados do Facebook e tampouco têm direito aos mesmos bônus, além de serem encarregados das tarefas mais pesadas para manter a comunidade funcionando com segurança.

As queixas são preocupantes e, infelizmente, o Facebook pode não ser a única companhia a permitir que isso aconteça. O documento também ajuda a trincar mais a já sensível rachadura que representa a confiança do público quanto a rede social, ainda mais considerando todo o alarde que os altos executivos e o próprio CEO da empresa, Mark Zuckerberg, fazem sobre como os moderadores de conteúdo são essenciais para manter o Facebook seguro e popular.

Vale lembrar, porém, da denúncia que o Wall Street Journal fez, descrevendo a função de “moderador de conteúdo” como a pior do segmento de tecnologia, já que a força de trabalho desta profissão faz a linha de frente para todo o tipo de postagem que se possa imaginar e de maneira ininterrupta, precisando barrar vídeos e fotos perturbadores enviados pelos usuários.

 

A resposta do Facebook

A porta-voz do Facebook Carolyn Glanville negou as novas condições de trabalho e disse que as regras aplicadas são um mal-entendido das já existentes. “Não houve mudanças nas regras de operação neste local e parece ser um equívoco das políticas e procedimentos que estão em vigor. Levamos essas preocupações a sério e estamos trabalhando de perto com a nossa parceira, que está abordando essas preocupações com seus funcionários”, afirmou.

A parceira a quem a representante se refere é a Accenture, que contratou os moderadores de conteúdo que estão se queixando das condições de trabalho. A resposta, porém, levanta questões sobre possíveis regras semelhantes que já estavam em vigor antes para o setor. Além disso, grande parte das reclamações é a respeito dos períodos de descanso.

A carta lista que os empregados não podem deixar as instalações durante os intervalos de trabalho e que uma pausa adicional é dada aos trabalhadores para que eles fiquem inativos ou consultem “coaches” da empresa. Os moderadores também não podem sequer caminhar no quarteirão do prédio.

Outra queixa é a respeito da comunicação, já que os funcionários só podem se comunicar com alguém durante os intervalos e não durante o trabalho, o que os impede de efetivamente descansarem nessas pausas. Por fim, há a preocupação com o uso dos aparelhos celulares, cujo uso é liberado apenas durante o almoço e o descanso.

Porém, não se pode usar um cômodo para atender a chamadas em particular, mesmo se a sala estiver vazia - e chamadas são tratadas como emergências familiares. “A equipe da Accenture informou aos moderadores de conteúdo que os operadores [da companhia] checarão o prédio de hora em hora para garantir o cumprimento dessa nova diretriz”, alerta o documento.

De acordo com os moderadores, eles nem mesmo podem receber visitas de familiares em seu trabalho, algo que os funcionários diretos do Facebook são livres para fazer.

“Temos orgulho do nosso trabalho nas operações da comunidade e nos orgulhamos de proteger a plataforma dos nossos clientes contra os maus feitores. Mas esse orgulho diminui quando essa fiscalização destrói a confiança entre a força de trabalho e a gerência. É difícil trabalhar em um ambiente que é marcado por um aumento excessivo de monitoramento em tudo”, diz a carta, alegando que o ambiente virou um “Big Brother”.

Não se sabe se as regras se aplicam a outros setores administrados pela Accenture ou se apenas o do Facebook está sofrendo com essas supostas regras. É bastante comum que companhias de tecnologia contratem através de parceiros para ampliar a gama de funcionários de forma rápida e barata, mas as condições que são oferecidas ou impostas sobre estes vêm chamando cada vez mais atenção.

E enquanto o Facebook afirma que está analisando o assunto, outros funcionários da empresa pareceram horrorizadas com as condições descritas na carta. Um engenheiro, inclusive, respondeu no fórum que os “moderadores de conteúdo são as pessoas que literalmente mantêm esta plataforma de pé”.

“Elas são as [pessoas] que mantêm a plataforma segura. Elas são as pessoas que Zuck menciona publicamente quando falamos sobre a contratação de milhares de pessoas para proteger a plataforma. Isso é incrivelmente decepcionante”, acrescentou o empregado do Facebook.

Fonte: Business Insider

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