O COMETA 2019/Y4 ATLAS

Segundo o Minor Planet Center (MPC-IAU), esse objeto foi relatado por L. Denneau (em nome do observatório ATLAS) em 28 de dezembro de 2019 com uma possível aparência cometária. Observações feitas em 31 de dezembro por Lucas Buzzi (Observatório Schiaparelli) evidenciaram uma coma alongada de 10 segundos de arco. Os elementos orbitais desse objeto são muito similares aos do Grande Cometa de 1844 (C/1844 Y1 = 1844 III). Ronaldo Mourão informa aquele cometa de 1844 foi "descoberto pelo Capitão Wilmot, em Greenpoint, próximo à Cidade do Cabo, em 19 de dezembro de 1844, quando estava situado próximo ao horizonte, na constelação de Sagittarius, com uma cauda de 3 a 4 graus de comprimento... Foi observado na mesma semana na Austrália, na Nova Zelândia, na Índia, no Ceilão e no Brasil em janeiro de 1845". O portal SpaceWeather.com publicou em 23 de fevereiro de 2020 que esse Grande Cometa de 1844 teria sido observado em plena luz do dia e indicou um link para o artigo de G. P Bond no Astronomical Journal em 1850. Provavelmente o Spaceweather se equivocou com o Grande Cometa de Março de 1843. Segundo o próprio artigo de G. P. Bond, o cometa de 1844 "during the latter part of December and the first week in January, it was a brilliant object in the southern hemisphere, equaling, it is said, in brightness the celebrated comet of HALLEY at its last appearence" [grifo acrescentado]. Ora, os registros indicam que o Cometa 1P/Halley atingiu um brilho máximo de 1ª magnitude na aparição de 1835 e tal valor de brilho total da coma não é suficiente para ser visível a olho nu em plena luz do dia. Ronaldo Mourão informou em seu artigo no Jornal do Brasil, 18 de março de 1986, que o Cometa Wilmot (1844 III) atingiu um brilho de magnitude zero e foi ao menos visível à luz da Lua Cheia.

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Significa isso que o Cometa C/2019 Y4 ATLAS será tão brilhante a ponto de ser visível a olho nu? É preciso ter cautela. Uma previsão conservadora feita em meados de março sugere que o máximo brilho possa alcançar magnitudes entre 0 e –1 na época do periélio. Até então os parâmetros sugerem que a órbita dele é muito similar à do Cometa de 1844. Essa similaridade não é garantia de que venha a atingir uma magnitude suficiente para ser detectado a olho nu. Porém, o observador deve estar sempre atento quanto a essa possibilidade.

Em meados de março de 2020 diversos observadores do hemisfério norte estimaram o brilho total da coma entre a 8ª e 9ª magnitude. Porém, ressalta-se que o valor médio do diâmetro da coma foi avaliado em torno de 10 minutos de arco e sua condensação entre 1 e 3 (lembrando que o valor zero é para uma coma homogeneamente nebulosa). Também se deve levar em conta o brilho superficial da coma.

Feitas essas ressalvas, analisaremos a trajetória desse cometa com base nos elementos orbitais publicados na MPEC 2020-F67 e parâmetros fotométricos calculados por Seiichi Yoshida.
Em abril de 2020 o cometa é visível brevemente ao anoitecer nas localidades do extremo norte das regiões Norte e Nordeste do Brasil. O brilho do cometa passa da 7ª para a 4ª magnitude enquanto atravessa a constelação da Girafa. Na primeira semana de maio ele ainda pode ser visível em circunstâncias parecidas ao mês de abril, porém ainda para os observadores do extremo norte brasileiro. Espera-se que no início de maio seu brilho atinja a 3ª magnitude. Podemos afirmar que, em termos práticos, ao longo do mês de maio o cometa é visível favoravelmente no hemisfério norte ao anoitecer enquanto se desloca rapidamente da constelação da Girafa para Perseu.
Em 23 de maio ele passa mais próximo da Terra, cerca de 117 milhões de km (0,78 ua). Nesse dia seu brilho pode atingir magnitude 0 (zero), apesar de se situar cerca de 17 graus ao norte do Sol. A princípio, nas demais regiões do Brasil, sua visibilidade se restringe a breves momentos antes de o Sol nascer, durante a última semana do mês de maio e primeira semana de junho. Em 29 de maio o astro se situa 2 graus à oeste das Plêiades e seu brilho provavelmente alcance magnitude –1. Esse valor de brilho não implica de o cometa ser automaticamente visível a olho nu, pois ele alcança tal magnitude quando estiver numa elongação de apenas 15 graus do Sol. Caso a coma realmente atinja esses valores de brilho, um binóculo com aumento de 7 ou 10 vezes será útil para visualizá-lo nas luzes do crepúsculo matutino. Por outro lado, caso o cometa exiba uma cauda de poeira, é possível que a cauda tenha um brilho suficiente para ser discernível em céus escuros e com o horizonte nordeste e leste livre de obstáculos – similar ao Cometa de 1844.
Como informado na tabela acima, o periélio do cometa ocorre no dia 31 de maio quando ele se situa a 0,25 ua do Sol (~37 milhões de km), mais próximo do Sol do que o planeta Mercúrio.
Na primeira zemana de junho o cometa é visível brevemente antes de o Sol nascer situado na parte ocidental da constelação de Touro. Sua trajetória faz com que permaneça muito baixo no horizonte leste ainda durante o crepúsculo náutico, de modo que é imprescindível ter o horizonte leste completamente livre de obstáculos para observá-lo.
No dia 5 de junho seu brilho deve ser em torno de magnitude 0 (zero) e uma semana depois o brilho deve diminuir para a 2ª magnitude.
Em 14 de junho o cometa ingressa na parte ocidental da constelação de Órion e seu brilho cai para a 3ª magnitude. No final de junho estará cerca de 5 graus ao norte das Três MArias, mas seu brilho diminui para a 5ª magnitude. O astro permanece na constelação de Órion até meados de julho quando o brilho cai para 7ª magnitude.

Fontes consultadas:
Introdução aos Cometas (1985), de Ronaldo Rogério de Freitas Mourão
Banco de Dados de Órbitas e Observações do MPC
Website de Seiichi Yoshida

Órbita: o diagrama abaixo mostra a órbita e as posições do cometa e da Terra na data do periélio. (©2002 JCRuig - soft Orbitas)

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