Portugal em alerta à espera de super-fungo que mata até 72% dos doentes

Há um novo alerta para a Saúde Pública mundial dada a proliferação de uma doença infecciosa causada pelo fungo Candida auris, que se revela mortal para até 72% dos doentes. Em Portugal, ainda não há sinais da infecção, mas os hospitais estão preparados para o que parece uma chegada inevitável.

 
A Candida auris é um micro-organismo da família da candida mais comum que está associada à candidíase, uma infecção ginecológica que afecta muitas mulheres ao longo da vida e sem consequências graves.

Todavia, a Candida auris revela particular resistência a medicamentos e tem sido mortal em “até 72% dos doentes em apenas um mês”, como apontam números divulgados pelo Expresso.

A disseminação pelo mundo e a forma letal do micro-organismo já lhe motivaram o cognome de super-fungo e os hospitais portugueses estão preparados para a sua chegada.

 
O Expresso avança que “vários casos suspeitos foram já analisados” e que “até agora, todos os resultados foram negativos, mas o fungo é esperado a qualquer momento”.

Recomendações para evitar infecção


Como recomendações de prevenção contra a infecção, aconselha-se a lavar as mãos com frequência, especialmente antes e depois de entrar em hospitais e centros de saúde ou após contactos com pessoas doentes.

Também se devem tomar antibióticos conforme as prescrições médicas, no tempo e doses recomendadas, bem como não abusar do uso deste tipo de medicamentos.

Além disso, convém garantir a máxima higiene possível nas unidades de saúde, em internamento e cirurgia.

Como apareceu e o que é o Candida auris


Foi em 2015 que surgiram os primeiros relatos de infecções com o Candida auris, como reporta a especialista em doenças infecciosas do Imperial College London Johanna Rhodes, em declarações à BBC.

“No hospital, havia dois pacientes infectados com o micro-organismo, mas não parecia algo muito sério, até que perceberam que o fungo se tinha espalhado pelas paredes, pelos móveis e por toda a superfície do local”, relata Rhodes.

Mas o fungo não estava só a espalhar-se pelo hospital de Londres, mas pelo mundo.

O Candida auris é uma espécie de fungo que cresce como levedura e que foi identificado pela primeira vez há cerca de uma década.

“Não sabemos qual a sua origem, mas foi descrito pela primeira vez em 2009, ao ser isolado após ter sido encontrado no canal auditivo de um paciente na Coreia do Sul”, explica Rhodes.

Alguns anos mais tarde, apareceu no Japão e começaram a surgir surtos na Índia, na África do Sul, na Venezuela, na Colômbia, nos EUA, no Reino Unido e em Espanha.

Apesar de ser do mesmo género do fungo Candida albicans, um dos principais causadores da candidíase, são espécies bem diferentes. A candidíase por Candida albicans é uma doença comum que pode afectar a pele, as unhas e os órgãos genitais, mas que é fácil de tratar.


Já a infecção pelo Candida auris é resistente a medicamentos e pode ser fatal, explica à BBC o infectologista e especialista em contaminação com fungos Alberto Colombo, professor da Universidade Federal de São Paulo, no Brasil.

Segundo o infectologista, é possível ser infectado de forma passageira pelo fungo na pele ou na mucosa sem ter problemas. O fungo apresenta risco real se contaminar a corrente sanguínea.

Para a pessoa ser infectada, é preciso que tenha sofrido procedimentos invasivos (como cirurgias, uso de catéter venoso central) ou que tenha o sistema imunológico comprometido. Pacientes internados em unidades de terapia intensiva durante longos períodos e com uso prévio de antibióticos ou anti-fúngicos também são considerados grupos de risco para a contaminação.

Um potencial problema de saúde pública

A professora do Departamento de Medicina e Microbiologia Médica e Imunológica da Universidade de Winsconsin, nos EUA, Janiel Nett, explica à BBC que diferentes variantes do fungo começaram a aparecer em quatro continentes ao mesmo tempo.

“Uma aparição assim simultânea não tem precedentes”, destaca Johanna Rhodes, salientando que “o que mais preocupa é que todas as variantes mostraram uma forte resistência” aos medicamentos.

Isto deve-se à evolução do fungo que “sofreu um processo de especialização“, como destaca Alberto Colombo. “Nasceu numa época em que há muito uso de substâncias anti-microbianas, muitos anti-fúngicos, e nesse ambiente de pressão selectiva a espécie torna-se resistente”, explica o infectologista.

Trata-se de um processo similar ao do aparecimento de bactérias resistentes a antibióticos. Os anti-fúngicos matam quase todos os fungos, mas alguns sobrevivem – precisamente os que possuem mutações que os tornam resistentes ao veneno. Estes reproduzem-se e as gerações seguintes herdam os genes que tornaram os antepassados resistentes. A espécie vai, assim, tornando-se cada vez mais resistente a medicamentos.

Janiel Nett refere que mais de 90% das infecções causadas pelo Candida auris são resistentes a pelo menos um medicamento, enquanto que 30% são resistentes a dois ou mais remédios.

Uma das principais “habilidades” adquiridas pelo fungo é a de conseguir ficar vivo fora do corpo humano. “Ele contamina o ambiente hospitalar e fica vivo durante semanas“, aponta Alberto Colombo.

O fungo também consegue sobreviver na boca e na pele de pessoas que já foram tratadas – a pessoa é curada da infecção na corrente sanguínea, mas o fungo sobrevive superficialmente durante dias.

O modo exacto de transmissão não é conhecido, mas as “evidências iniciais sugerem que o organismo se pode disseminar em ambientes médicos por contacto com superfícies ou equipamentos contaminados, ou de pessoa para pessoa”, afirma a Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Brasil (Anvisa).

A experiência durante os surtos registados aponta que o fungo pode “contaminar substancialmente o ambiente de quartos de doentes colonizados ou infectados”, acrescenta a Anvisa, frisando o “risco particular” de a transmissão se dar “directamente de artigos e equipamentos de assistência ao paciente” ou através “das mãos dos profissionais de saúde”.

Os EUA contabilizaram um total de 537 casos de Candida auris, a maioria em hospitais. Segundo o Centro de Controle de Doenças dos EUA, quase metade dos pacientes que contraíram o fungo morreram em 90 dias.

Embora o fungo seja um potencial problema de saúde pública, Johanna Rhodes considera, contudo, que as pessoas não se devem preocupar em excesso.

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