"Virose da mosca": médico infectologista responde as principais dúvidas

"Virose da mosca": médico infectologista responde as principais dúvidas

Doença já registrou mais de 11 mil casos no Ceará, somente neste ano

O médico infectologista Anastácio Queiroz conversou com a reportagem do Sistema Verdes Mares para esclarecer dúvidas sobre a chamada “virose da mosca”, doença já registrou mais de 11 mil casos no Ceará, neste ano, de acordo com a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa). Independente do nome, a Doença Diarreica Aguda (DDA) tem preocupado muita gente.

 
Que doença é essa? De onde ela veio?

Na realidade, não existe cientificamente “virose da mosca”. Acredito que esse nome pode ter nascido por terem observado maior número de infecções em áreas que têm muita mosca. Evidentemente, ela pode transmitir porque pousa em objetos ou substâncias contaminadas, até mesmo em fezes, dependendo do local, e depois para no alimento exposto. Teoricamente, aquela enfermidade pode ter sido transmitida pela mosca. Mas nós sabemos que muitas infecções que estão ocorrendo estão relacionadas com água contaminada ou com as mãos que as pessoas não lavam. É um misto de infecções em que a mosca pode ser um dos componentes.

Então a mosca não é a vilã?

Não, até porque você tem pessoas adoecendo em ambientes que têm muito pouca mosca. Se fosse mesmo “virose da mosca”, as pessoas que vivem em ambientes de muita limpeza e higiene não teriam essas infecções. Mas isso não é verdade, todos adoecem. Óbvio que aqueles que vivem em ambiente mais insalubre estão mais suscetíveis. As infecções são doenças de pessoas mais carentes, que vivem em ambientes com maiores dificuldades de acesso a água e habitação, que andam descalças em piso de barro, que comem em qualquer local.

Como funciona o diagnóstico?

É um conjunto de doenças. Esses diagnósticos são sindrômicos (referidos pelos pacientes e percebidos por sintomas). Na maioria das infecções, não fazemos diagnósticos de certeza, fica só na hipótese. Consequentemente, para que disséssemos que era “da mosca”, seria preciso uma análise do ambiente, seria muito complexo. Agora, temos múltiplas viroses acontecendo e os fatores são várias.

Quais são os principais sintomas?

Quadros de dor abdominal, febre e diarreia. 

Quem está mais vulnerável?

Principalmente as crianças muito pequenas, pessoas debilitadas ou muito idosas. Aos primeiros sintomas, elas devem ser encaminhadas a uma unidade hospitalar porque eles não podem piorar. Às vezes, 12 horas para uma criança pequena podem implicar num agravamento muito grande. É diferente de uma pessoa hígida (sadia), que pode aguentar um pouco. Pessoas que fazem quimioterapia ou que tem diabetes ou doenças do coração também devem ter toda atenção.

Como funciona o tratamento?

A maioria dessas doenças têm tratamento sintomático. Se a pessoa tem diarreia e febre, tem que hidratar e discutir o uso de antibiótico. O médico precisa acolher a história completa para, a partir desses dados, elaborar um diagnóstico. Cada plano vai variar. É muito importante a participação do doente, para ele sair da consulta esclarecido.

Quem pegou a virose pode doar sangue? 

Qualquer indivíduo na presença de uma doença não pode doar sangue. Mas o que já está bem, depois de recuperado, pode. Estando sem sintomas, abaixo de 60 anos, pode.

Como se prevenir dessas infecções em casa e no trabalho?

Quem está doente é o maior protagonista na prevenção. Se eu tossir, passar a mão no nariz e depois pegar na sua mão, eu vou lhe contaminar. Se você está no ônibus e, sem querer, espirrar em cima de você, também. É importante virar a cabeça ou por um lenço e não apertar a mão. É importante lavar bem as mãos; se não com água e sabão, com álcool em gel. Beber água de qualidade. Não deixar o alimento exposto. O alimento deve ser bem cozido ou bem assado. Comer na rua, principalmente folhas, é um risco muito grande. É muito difícil achar uma alface bem lavado. É melhor comer alimentos cozidos para que as doenças sejam evitadas.

"Virose da mosca": médico infectologista responde as principais dúvidas

Os surtos de Doença Diarreica Aguda (DDA) — popular e erroneamente conhecida como “doença da mosca” são típicos do começo de cada ano, por conta da pré-estação das chuvas. O Ceará já registrou 4971 casos, entre 30/12/2018 e 05/01/2019, de acordo com a primeira planilha de doenças notificação compulsória, divulgada pela Secretaria de Saúde do Estado (Sesa).

Sobral é o município que lidera a estatística, notificando 302 casos. Fortaleza ainda não registrou nenhum caso. A DDA é conhecida por “doença da mosca”, mas o médico Rui de Gouveia explica que a transmissão do vírus causador da doença não é feita através do inseto.

"Virose da mosca": médico infectologista responde as principais dúvidas

 > Período de pré-estação chuvosa aumenta contágio da 'virose da mosca'

Ele acredita que a virose ganhou este “apelido” devido à época mais chuvosa do ano, onde aumenta a proliferação de moscas. “O que se nota, nesse período chuvoso, é que em alguns locais, você percebe o aumento da proliferação de moscas. E isso pode ter correlação com questões de higiene, cuidados com alimentos. Mas não existe diretamente transmissão do vírus pela mosca”, completa Gouveia.

 

"Virose da mosca": médico infectologista responde as principais dúvidas

Rui, que é coordenador da Atenção Primária à Saúde de Fortaleza, também comenta a correlação entre o período chuvoso e o aumento da transmissão. “Nesse período chuvoso, se tem um maior número de pessoas em aglomerações em ambientes fechados, que têm aumento do contato. E consequentemente, com o aumento do contato, aumenta a possibilidade de transmissão de vírus”. 

Entre os principais locais de aglomeração, o especialista cita shoppings e festas de pré-carnaval. Ele também alerta que a principal forma de transmissão da doença é através de contato interpessoal, seja direto ou indireto.

Limpeza e tratamento

Higiene é a principal arma de combate contra o aumento da DDA. “Lavagem das mãos, lavagem dos alimentos, cuidado no preparo etc. Tudo isso é fundamental para que se evite a transmissão com maior intensidade”, complementa Rui de Gouveia. 

Em relação ao tratamento da doença, o coordenador explica que o método serve como “reforço” aos mecanismos de defesa presentes no próprio organismo. “A pessoa precisa se manter bem hidratada, porque naquele momento, ela está perdendo muitos líquidos. É interessante utilizar os sais de reidratação oral, que são distribuídos nos postos de saúde”, destaca. 

Em relação aos sais de reidratação, ele explica a utilização do medicamento. “Quando você coloca os sais na água, ela vai ser mais facilmente absorvida pelo intestino, mesmo que esteja lesionado pelo vírus. Por isso os sais são importantes. Porque como o intestino foi agredido pelo vírus, ele não consegue absorver naturalmente a água que você bebe”. Analgésicos e anitermicos são aconselhados apenas em caso de dor no corpo e/ou febre.

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